A NECESSIDADE DO HUMOR PARA A PROMOÇÃO DA DEMOCRACIA

Hoje (17/10/2016), como faço quase todos os dias, dei uma olhada nas notícias sobre a eleição americana, na CNN. E lá estava Donald Trump fazendo outra declaração estapafúrdia. Ele disse que o programa de humor americano Saturday Night Live deveria sair do ar! E por quê? Porque os comediantes do engraçadíssimo programa (que também não perco) resolveram tirar uma com a cara dele.

Os atores do programa são muito talentosos, mas acho que eles nem precisam usar muito de suas habilidades para conseguir uma piada sobre um egocêntrico alaranjado lançador de polêmicas absurdas e de teorias da conspiração, que fala sempre em frases curtas e as repete em seguida (será que é para dar ênfase? Será que é para dar ênfase?).

O último episódio do Saturday Night Live foi realmente muito engraçado. Alec Baldwin faz uma imitação fantástica de sua cara laranja e de suas mãos pequenas de indicador sempre em riste, a caricatura de um ditador maluco.

Parece que o imitado não gostou muito do que viu. Imagino que não deveria mesmo gostar, não deve ser fácil ter seu “outro lado”, talvez inconsciente para ele, exposto assim num programa de grande audiência por atores talentosos.

Agindo novamente como um ditador maluco, Trump solicitou, em sua mensagem de desaprovação ao programa, que o show fosse retirado do ar. É importante lembrar que, mais no início de sua campanha eleitoral, Trump fez diversas participações no mesmo SNL. Que contradição, não? Talvez não para ele, que sempre apóia quem o apóia e ataca de modo grotesco quem o critica, assim como um menino mimado. Seu mundo deve se dividir em quem está com ele e o resto, que é classificado como a parte que deve ser eliminada da Terra.

É mesmo notável como a figura de um ditador, psicologicamente falando, se aproxima daquela de um menino mimado, que acha que é mais importante do que os outros e que ameaça destruir com toda fúria qualquer um que o contrarie.

Até mesmo se a contrariedade se dá por fatos ou números. Quando Trump estava bem nas pesquisas, isso significava, para ele, que as pessoas estavam conscientes na escolha de apoiá-lo; agora, que seus números apenas caem, segundo ele, é porque a eleição está “manipulada” – uma teoria da conspiração típica de um ditador Venezuelano que culparia os EUA por qualquer coisa desfavorável que acontecesse no país (e olha que ultimamente não faltam notícias ruins). A mesma coisa vale para a Coréia do Norte e seu caricato ditador.

Um ditador que se mantém no poder normalmente sabe de uma importante manobra psicológica, chamada de projeção da sombra, que eles normalmente usam com maestria para evitar críticas e avaliações sóbrias da população. Um ditador tem que eleger um inimigo para, ao demonizá-lo, induzir as pessoas a lançarem sua agressividade instintiva e também suas frustrações contra este último apenas, evitando que o ódio se volte contra o ditador. Este tem de posar como o salvador, aquele que irá resolver problemas causados por uma fonte externa (ainda que a razão verdadeira seja a falta de comida provocada por sua má administração da agricultura), não como alguém que oprime e que impõe a ineficácia administrativa e a injustiça com sua visão (bem particular) de mundo.

A sombra agressiva das pessoas deve então ser projetada, isto é, inconscientemente associada ao inimigo externo, nunca ao “pai do povo” ou seja lá qual for o mote do ditador em análise.

Como a projeção é um processo inconsciente, o ditador sabe, instintivamente, que suas mentiras conspiratórias devem mexer com as pessoas e estas nunca podem começar a duvidar dessas teses. Se começarem a duvidar, as pessoas também começarão a olhar para os fatos com mais atenção e a analisar melhor o que foi dito. Isso, aos poucos, tornaria as pessoas conscientes da manipulação que sofrem, que as fazem aceitar teses fracas com um fervor religioso. Essa migração da inconsciência para a consciência coletiva pode, claro, representar o fim do regime ditatorial.

De acordo com o “Manual de Sucesso do Ditador Moderno” (sim, acabei de inventar isso!), podemos ver que uma das orientações mais importantes a um ditador é evitar esse processo de conscientização da população. A projeção da sombra só ocorre com o que é inconsciente, enquanto o que é consciente é avaliado de modo mais objetivo pelas pessoas. Dessa forma, o ditador deve controlar a imprensa e as produções artísticas “contrárias ao regime”, pois elas poderiam ajudar as pessoas a se conscientizar da manipulação a que estão submetidas.

Dentre as produções artísticas, temos o humor, algo perigosíssimo a qualquer regime totalitário ou lunático de plantão.

Na psicologia analítica, considera-se que uma pessoa capaz de rir de si mesma está mais próxima de seu equilíbrio psíquico do que alguém que, como o candidato republicano, ameaça processar qualquer um que ouse fazer graça com seus excessos e maluquices. Trump chegou a dizer, num dos debates recentes, que colocaria Hillary na cadeia caso fosse eleito, o que revela seus impulsos totalitários, passando por cima da corte americana, que é soberana.

Poderíamos fazer uma interessante análise sobre a possível dificuldade do Trump em aceitar sua própria sombra (e que, por isso, não consegue lidar com o humor quando direcionado a ele mesmo), mas, nesse artigo, analisarei apenas a importância coletiva do humor, não a importância individual.

O comediante é especializado em captar o que ainda nos é inconsciente – normalmente algum aspecto negativo da sociedade ou de alguma personalidade – e nos apresentar isso de modo engraçado. Quando o humorista é bem sucedido em seu propósito, a rápida conscientização do que nos era inconsciente até ali é sentida como uma catarse, uma revelação, pois algo que sentíamos existir em algum lugar de repente se tornou evidente! Essa catarse ocorre com uma gargalhada compulsiva, pois o riso vem antes da elaboração racional. Explodimos primeiro numa gargalhada espontânea e, só depois é que talvez pensemos melhor sobre a profundidade do que foi dito. Nesse processo, os humoristas podem, piada a piada, nos conscientizar daquilo para o que éramos inconscientes, mas que ainda assim existia dentro de cada um de nós – caso contrário (se não existisse), a catarse da risada não ocorreria.

Para evitar tal conscientização é que um ditador promove o riso contra os supostos inimigos e nunca contra o regime dominante, além de outras medidas cujo objetivo é o de cultuar a imagem ditatorial e evitar qualquer associação crítica ou negativa a ela.

Claro que, se não existisse nada de negativo no inconsciente das pessoas com relação ao regime dominante, o comediante poderia fazer a piada que quisesse sem que algo negativo viesse à superfície consciente, porque não haveria nada a vir! Nesse caso, também, a piada provavelmente não seria assim tão engraçada.

Ainda estranho ver tal discurso típico de um ditador na boca de um candidato à presidência dos EUA! O que será que aconteceu com eles? Como isso pode ter acontecido por lá, um país famoso pela liberdade de expressão e tradição democrática?

Talvez a explicação esteja no discurso do Trump, que promete destruir tudo o que se refere aos valores dominantes, na política, na economia, na cultura. Uma das coisas que esse candidato repete como um mantra é o quanto o “politicamente correto” nos prejudica atualmente. Eu não acho que ele tenha qualquer condição de lidar com esse nosso conflito atual, o excesso do politicamente correto, mas detesto admitir que ele apontou algo legítimo, um problema psicológico de nossos tempos modernos.

E não estou sozinho ao apontar isso. Leandro Hassum é um humorista de destaque no Brasil. Veja o que ele diz sobre o politicamente correto numa entrevista à revista Playboy brasileira:

 

Playboy: O Rafinha [Bastos, comediante] e o Danilo [Gentili, comediante] se meteram em algumas polêmicas ao longo de suas carreiras. Há algum limite para o humor?

Hassum: Não existe limite para o humor. A gente deveria poder falar de tudo. Dizer ‘não pode’ em uma democracia é um absurdo! Eu, pessoalmente, não faço esse tipo de humor mais ofensivo, mais agressivo. Eu vou até o meu limite. Talvez o limite do Rafinha Bastos seja outro. Ou o do Danilo Gentili, que fez piada com judeus, aí o [Roberto] Justus não gostou e deu um passa-fora nele. Mas o Danilo tem o direito de fazer a piada.

Playboy: Dá para fazer piada de negro, judeu ou homossexual sem esbarrar no preconceito?

Hassum: Hoje em dia, não. Sempre vai ter um grupo que vai ficar puto, que vai querer que você morra. Eu fiz um gaúcho afetado na novela. Em momento algum eu falei que eu ia dar a bunda. Só fiz um gaúcho mais afeminado. Bastou para que eu recebesse ameaças. “Quando você vier pro sul eu vou te matar!”; “Você está desrespeitando as nossas tradições!” Eu sou de uma época em que, em Os Trapalhões, o Didi chamava o Mussum de tiziu. As minorias têm o direito de se movimentar. Mas uma hora a gente não vai ter para onde correr.

Playboy: O politicamente correto está exagerado?

Hassum: Total exagero. Há casos e casos. Eu acho atitudes como essa da menina do Grêmio, por exemplo, de chamar de macaco, uma racismo filho da puta. Mas hoje você não pode mais fazer piada de gay, não pode fazer piada de português, não pode fazer um comentário. Tudo o que você faz está agredindo, está ofendendo… Isso eu acho um exagero. (EDITORA ABRIL, revista Playboy, edição de Outubro de 2014. p 148.)

 

Nosso politicamente correto está se tornando tão dominante que essa ideologia está começando a se apresentar como algo opressor, bem ao estilo de um regime ditatorial, de modo que não há mais espaço para contrapontos. O humor é sempre politicamente incorreto e, assim como ocorre num regime ditatorial, é o primeiro a cair numa situação de domínio ideológico que vivemos. Só para deixar claro, não estou afirmando que o ideal é o politicamente incorreto, isso seria sair de um exagero e ir para outro. Não, estou dizendo que, como em toda democracia, é preciso que todos tenham alguma voz e liberdade para se expressar.

É preciso desenvolver a capacidade de rir das limitações de suas próprias crenças e também de seus excessos para se manter os ditadores afastados.

Espero que o povo americano seja capaz de rir do Trump e de todas suas características despóticas e teorias de conspiração, da mesma maneira que possamos todos rir do excesso do politicamente correto e da falsidade que ele inerentemente traz para nossa sociedade.

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A INFLAÇÃO DA IOGA

Hoje em dia temos de ser leves, leves como uma pluma. Qualquer sinal em nossa atitude que mostre algo diferente disso funcionará como uma evidência de desequilíbrio.

Almejamos a pasteurização dos instintos. A raiva então, é uma emoção proibida, que somente os malfeitores podem apresentar.

Esse desejo acaba se refletindo em tudo. Numa decoração ideal, as cores são claras ou apenas o branco predomina, como num hospital, ou como deveria ser uma casa decorada pelo Steve Jobs, que seria a “casa Apple”. Tudo branco, limpo, minimalista, leve, inodoro, insípido.

No meio dessa febre branca, os clientes de psicoterapia trazem, com grande freqüência, sonhos incômodos que possuem o mesmo tema geral: banheiro. É isso mesmo, muitos clientes sonham com esse tema e, normalmente, a cena é perturbadora. Fezes e urina por todos os cantos, nas mais variadas composições; pessoas que descobrem estar fazendo suas necessidades em público; muitas vezes a platéia interage, rindo, por exemplo; situações em que não se consegue limpar o suficiente, nem o corpo e nem o local; ou então, também é comum que o cliente relate que as fezes saiam pelo vaso e sujavam tudo, por mais que se quisesse dar a descarga. Que cenário! Nojo e medo da exposição das dificuldades na privada são sensações constantes.

Este cenário dos sonhos está para a “casa Apple” assim como uma mancha de piche para uma propaganda de clareamento dental. Como explicar tamanha contradição? A pessoa procura se cercar de coisas limpas e leves e sonha com banheiro sujo?

Não pense que a questão está relacionada à higiene apenas, nada disso, a coisa é muito mais abrangente: trata-se de uma “noção de pureza” que pode ser traduzida de diversas maneiras, assim como o da casa branca e minimalista.

A tecnologia, que nada mais é do que um produto utilitário e materializado de nossas aspirações, tem ajudado muita gente a se manter com essa neurose de pureza.

Um amigo resolveu trocar suas refeições por um pó branco, que ele dissolve na água ao chacoalhar por minutos um recipiente transparente plástico, que parece o cruzamento de uma coqueteleira com uma mamadeira. A coisa não cheira muito bem e o seu aspecto é ainda pior do que o cheiro, especialmente quando você vê um adulto empunhando uma mamadeira gigante. Ele defendia sua escolha com unhas e dentes, dizendo que aquele era um meio evoluído tecnologicamente de se planejar as refeições. Veja, não exige um preparo elaborado, você pode levar para onde quiser, não suja louças e panelas e o melhor é que pode regular as exatas quantidades de proteínas, gorduras e carboidratos que desejar! Incrível, não? E o líquido apresenta a mesma cor da “casa Apple”, branca (coincidência?). E funciona mesmo? Bom, não sei, esse meu amigo desistiu do projeto revolucionário em poucas semanas. Quando o confrontei sobre a desistência ele desconversou.

A maioria das minhas clientes está fazendo algum tipo de dieta ou procura controlar atentamente o que ingere. É uma febre, todas elas (parte dos homens também) querem emagrecer ou não engordar, mesmo com o passar dos anos. Acho muito interessante como nenhuma delas procura avaliar sua tendência em ganhar peso de modo mais abrangente. Será que estou infeliz, tenho poucos prazeres, e por isso desconto tudo na comida? Tenho tendência genética para engordar? Será que tenho medo de aparentar minha idade se sair do meu manequim esquelético? Perguntas assim poderiam ir bem a fundo na avaliação da neurose do regime mas… para que complicar? A coisa é bem simples, seja disciplinada e feche a boca! Pronto, fim da história. Se fosse assim, os regimes não teriam a fama de funcionar por algumas semanas apenas.

Uma cliente da linha do regime jura adorar tofu, um tipo de queijo de soja (?) sem gosto algum. Ela gosta tanto que só come isso, de manhã, de tarde e à noite! Eu a provoco: “Mas e uma pizza? Vai dizer que não tem vontade?”, e ela diz que come, claro, pizza de tofu com massa fina integral… O tofu não chega a ser branco, mas é bem clarinho, inodoro (e também acho insípido), na linha da “casa Apple”.

Outra cliente bem magra tem por tradição levar sua marmitinha de alguma variação de peito de frango desfiado quando vai a alguma festa. Quando a confronto perguntando se todo esse trabalho é mesmo para não engordar ela nega veementemente: “Não é isso, é que eu não gosto muito dessas comidas de festa, não são bem para o meu paladar.” Seus sonhos dizem o contrário. Aliás, o peito de frango também é clarinho…

Um belo assado? Nem pensar! Quem comer isso morrerá imediatamente e ainda irá parar no inferno sem escalas.

Nesse raciocínio, o leite poderia nos enganar. Afinal ele é branco, bem branco. Mas ele não passa de uma obra de vacas satânicas que querem nos enganar em nosso processo de purificar a vida e nossos corpos! Veja sua composição nutricional e então saberá da quantidade de gordura, esse elemento do mal! Só pode se for leite desnatado. Mas melhor ainda se for leite de soja, de preferência bem branquinho.

Meu falecido avô riria disso tudo. Imagino-o falando: “Que é isso rapaz? Comendo papel?” Acho que ele nunca entenderia essa nossa neurose atual de buscar o puro e o leve na comida. Até porque ele era de uma época em que as pessoas eram muito menos sedentárias e precisavam de energia de verdade para seus corpos em constante demanda. Ele também não entenderia uma pessoa que faz força na academia de ginástica, mas isso fica para outro texto.

As sociedades ocidentais fizeram um imenso avanço intelectual, no sentido do desenvolvimento do raciocínio e da capacidade de organização e de planejamento, e isso acabou nos propiciando imensas vantagens tecnológicas para nossa sobrevivência como espécie dominante no mundo. Há um valor nisso tudo, claro. Essa foi uma importante conquista para nossa espécie. Eu mesmo gosto muito de saber que há analgésicos seguros de se tomar caso eu sofra algum acidente e acabe com alguma dor. Também gosto muito dos carros modernos que, com as tecnologias atuais, aceleram e freiam com uma eficácia inacreditável e, caso, não se consiga frear a tempo, a tecnologia empregada provavelmente te protegerá como nunca (quando se compara com carros de outras épocas). Isso para ficar em dois exemplos apenas. Eu valorizo a tecnologia. Porém (e há sempre um porém!), talvez tenhamos ido longe demais na valorização dessa tecnologia, talvez estejamos depositando nela a esperança pela resolução de todos os nossos problemas (inclusive as dores da alma).

Estamos tomados por um cenário no estilo dos Jetsons (um desenho animado americano dos anos 60), em que não se suja a mão com mais nada. Há uma máquina para qualquer necessidade. Até o preparo da comida é instantâneo e você pode escolher num cardápio o que quiser. Os carros flutuam e as pessoas já conversavam por um tipo de skype. Mas o mais interessante é que a empregada da família era robótica. Ela podia trabalhar sem parar e sem reclamar executando as tarefas sujas do dia-a-dia, como limpar o banheiro.

Poderíamos melhorar essa animação, aplicando nosso modo atual de ver o mundo e então tornaríamos o cachorro num robô também. O cachorro, uma espécie sem nossa capacidade de planejamento, raciocínio e execução, está mais próximo dos instintos, isso se não for puro instinto, mas na versão moderna do desenho dos Jetsons, ele seria de lata. Será que não é isso que secretamente almejamos? Será que não queremos robotizar nossos instintos para controlá-los de acordo com nossos modelos de sucesso para a vida?

Um cachorro-robô poderia ser programado para nos deixar em paz quando estamos fazendo algo que exige nossa concentração, para não entrar com as patas sujas em casa, para não pular nas visitas, para não latir e, o melhor de tudo, ele não teria pelos para cheirar a cachorro molhado nos dias de chuva! Absurdo? Pois acho que podemos estar tentando fazer o mesmo com nossos corpos.

Buscamos sublimar tudo o que é instintivo dentro de nós mesmos, essa é uma neurose moderna. É como se os instintos fossem nossos inimigos internos e nossa missão fosse controlá-los com técnicas diversas e disciplina.

O corpo pede mais comida? Quem se importa com o que ele pede? Não deixarei meu regime e minhas metas futuras para o meu corpo!

Essas pessoas podem acabar tendo sonhos de compulsão para atender ao que o corpo pede. O sonho pode envolver muito sexo, muita comida, muita preguiça e até mesmo banheiros sujos.

A pessoa segura os instintos com determinação e disciplina e os sonhos a colocam em situações desconfortáveis, na direção contrária do que ela reprime, para compensar um excesso em sua ação repressora.

Dessa maneira, o banheiro sujo pode ser um símbolo de tudo o que a pessoa despreza e que é natural e necessário ao corpo! O ciclo do corpo está em questão, e ele pode ter sido evidenciado pelo sonho para mostrar ao sonhador o que não está sendo levado em consideração. É claro que esta é apenas uma possibilidade de interpretação e não se deve fazer uma regra disso, mas essa linha se aplica com grande freqüência com os clientes.

O cliente pode então dizer: “Mas se eu começar a atender aos chamados instintivos, como ficarão meus objetivos de vida?” Bom, talvez os sonhos de banheiro estejam mostrando que seus objetivos são antinaturais e devem ser revistos (não necessariamente abandonados, apenas revistos). Ou ainda que você esteja percebendo seus instintos como um monte de m…., o que certamente é um modo desequilibrado de se lidar com os instintos.

Nossa tendência de sublimar instintos mais grosseiros tem nos levado a adotar cada vez mais filosofias e sistemas de crenças orientais. Então, se você é muito nervoso, a solução é fácil, basta fazer uma aula de ioga e você vai se acalmar… Não, nada de ficar cavando os motivos de sua raiva no inconsciente, isso dá muito trabalho e vai exigir que se questione muitas coisas na sua vida (e você não quer mudar seus objetivos!). A ioga certamente dará um jeito nisso…

Fico espantado com a crescente oferta de cursos que prometem “educar as emoções”! Psicologicamente falando, isso seria equivalente a adestrar um cachorro para que ele também fique mais “educado”. Que medo é esse das emoções? E por que essa vontade de suprimi-las em vez de tentar descobrir o que elas querem de nós? E as aulas de ioga para se “restabelecer o equilíbrio” continuam surgindo por aí para atender à constante demanda.

Jung, na obra: A psicologia da Kundalini Ioga, diz que, quando ocidentais adotam filosofias orientais e aderem a elas sem qualquer tipo de adaptação, o que se obtém, ironicamente, é uma imensa inflação do ego, isto é, o praticante acaba querendo se equiparar a um ser divino, superior e distante desse nosso mundo real. A pessoa acaba querendo se tornar apenas espiritual, deixando a sujeira da carne e dos instintos para trás. Isso é um desequilíbrio psíquico e deve ser evitado.

Há muitos adeptos das filosofias orientais que pensam estar flutuando entre nós, pobres seres grosseiros, numa imensa inflação de ego que os fazem se sentir como figura divina (nos hospícios também podemos achar muitos Cristos!). Mas, durante o sono, o inconsciente os avisa que eles não podem esquecer da m…. que os preenche.

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Defeito é dizer que seu defeito é o perfeccionismo

Você já deve ter se deparado com a situação em que uma pessoa, colocando-se numa posição autocrítica, afirma com dificuldade que seu grande defeito é ser perfeccionista. A mesma coisa acontece em entrevistas de emprego ou ainda em terapia.

Na minha opinião, essa exposição pessoal pode ser classificada de duas maneiras: 1. é uma resposta padrão e inconsciente ou 2. é o produto de uma mente maquiavélica e perigosa.

Agora que tenho sua atenção, ou pelo menos sua curiosidade (note que fui maquiavélico!), vou explicar melhor o que acabei de afirmar.

Dizer que seu defeito é ser perfeccionista é um incrível golpe de marketing pessoal, pois seu suposto defeito é, na verdade, algo valorizado atualmente em diversos setores de nossa sociedade. Claro que ninguém está aqui pensando no extremo total desse perfil, alguém que não consiga dormir nem produzir nada por causa de uma obsessão fora da realidade em atingir a perfeição com alguma coisa. Estamos é falando do tipo que se orgulha de uma coisa bem feita. Ou melhor, alguém que seja implacável na busca da perfeição de qualquer coisa que esteja se dedicando a produzir.

Outra característica dessa genial estratégia de marketing pessoal é que ela é normalmente aplicada apenas no mundo profissional, abrangendo a qualidade dos produtos e o critério ético empregado por uma determinada pessoa na execução de suas tarefas. Como é que ser perfeccionista assim poderia soar como um defeito?

O que não se vê é esse mesmo “defeito” sendo aplicado a outros contextos. Você não vai ouvir alguém dizendo que tem como defeito ser muito perfeccionista com a curtição de sua preguiça. Nem que alguém é muito perfeccionista em garantir a máxima ingestão de bebidas alcoólicas. Claro que se a pessoa afirmasse alguma dessas coisas ela estaria (aí sim!) relatando um defeito de seu caráter, e esse não é o verdadeiro objetivo da tal frase de efeito.

É muito comum afirmarmos uma coisa que aparentemente significa X mas que, na verdade, faz referência ao exato contrário de X. Veja a seguir alguns exemplos das frases tradicionais juntamente com sua “tradução”:

1. Pai para filho de um ano de idade: “Filhão, veja só o que o papai comprou para você! Um vídeo game de última geração só seu!” Tradução: “O vídeo game é obviamente para eu brincar (por causa da minha mente infantilizada), e sendo seu presente sua mãe não vai me encher tanto!” Depois de algumas horas em que a criança “jogou”, o pai chegou a conclusão que terá de deixar o brinquedo em seu quarto pois esse negócio de ele tentar morder o joystick pode danificar os circuitos internos com a baba. Quem sabe quando ele estiver se comportando melhor?

2. Vendedora de loja: “Ficou ótimo em você! E como essa cor lhe cai bem! Queria ter sua forma física para levar essa mesma peça.” Tradução: “O que não se tem de aturar para se conseguir uma mísera comissão de venda? A cliente, além de míope, é cheia de si e ainda tem mau-hálito! Mas tudo bem, vou garantir que ela sairá com a pior escolha possível, de cor e de tamanho.” A cliente interpreta os olhares de espanto na rua como um claro sinal de aprovação pelas outras pessoas. Ela nunca imaginou que poderia ficar tão bem em algo tão apertado, e nem que marrom poderia combinar tão bem com preto e roxo.

3. Tradição brasileira, dois amigos à mesa de um restaurante: “Garçom, por favor, aqui na minha mão! Não! Não! Faço questão de pagar!” Tradução: “Sou mesmo poderoso e generoso, não? Mas veja lá, não vai me deixar sozinho nisso, seu aproveitador!” O que pagou estoura com a mulher assim que pisa dentro de casa. É que ela soltou a piada lá do quarto: “Espero que não tenha dado uma de bobo e novamente pago a conta…”

4. Tradição brasileira, a visita se levanta para ir embora. O anfitrião: “O que é isso gente? Está cedo ainda! Por favor, fiquem mais um pouco!” Tradução: “Compraram meu teatro? Ótimo. Agora sumam daqui porque a minha cabeça está explodindo de tanta besteira que ouvi hoje. E não pensem em ficar por nem mais um minuto sequer, vocês acabaram com toda a comida e bebida disponível, não deve haver nem pó de café para mais uma passada.” Depois que a visita finalmente saiu, o anfitrião diz para a mulher que da próxima vez não atenderão nem à porta e nem ao telefone.

5. Mulher para outra mais jovem que acabou de pintar o cabelo de ruivo: “Nossa, você pintou o cabelo! Que inovadora! Essa cor quente combina mesmo com você. Queria ter a mesma segurança para fazer igual.” Tradução: “Nossa, que porcaria é essa que você fez no cabelo? Que sem noção! Se tivesse ficado um pouco mais vermelho as pessoas poderiam pensar que seus cabelos estão em chamas. Ainda bem que tenho bom senso e não faço esse tipo de besteira na minha cabeça.” A que elogiou continua fingindo interesse ao pedir mais detalhes sobre a definição do estilo inovador da amiga.

6. E-mail profissional de despedida: “Caros colaboradores e amigos, estou deixando a empresa para ir à busca de novos desafios profissionais. Como sabemos não há crescimento dentro de nossa zona de conforto e, por isso, é preciso caminhar em direção a novos horizontes. Despeço-me com tristeza pelos inúmeros amigos de deixo e também com um imenso respeito pelo profissionalismo inquestionável de todos os colaboradores.” Tradução: “Cambada de traíras, vocês fizeram minha cama até que acabei me deitando nela, não é? Espero que estejam satisfeitos! Se meu chefe não fosse um m…, teria me defendido em vez de me mandar embora! Já que você são uns vendidos, eu acho bom mesmo tentar trabalhar em um lugar com menos prostitutas e mercenários. Graças a Deus eu não terei mais de olhar para as caras de vocês e quer saber, quando essa porcaria falir, eu farei questão de estar assistindo aí da calçada! Vão todos t…. no c.!

7. Brasileiro para um alemão que visita o Brasil pela primeira vez (falando um péssimo inglês): “E aí, Hans? Tudo bem? Alles Gutte? Ha, ha, ha. Olha, já falei com a minha mulher e te esperamos em casa para passar o domingo! Não, não! Eu insisto! Aqui no Brasil somos todos assim. Nós nunca deixaríamos uma estrangeiro sozinho sem saber onde ir e o que fazer. Fazemos isso de coração.” Tradução: “Ô alemão, vou aturar sua falta de banho lá em casa porque estou interessado em desenvolver seu contato pessoal. Talvez eu até te leve para dar uma volta. Acho que vale o investimento, principalmente porque você é um alemão, se fosse boliviano ou qualquer outra coisa do nível eu correria de você! Mas sabe como é, quem sabe você não nos convida para uma colher de chá na Europa. Faço questão. Fazemos isso por interesse mesmo!”

 

Acho que é mais fácil de se analisar a situação em que se esconde (consciente ou inconscientemente) uma mensagem negativa e, no lugar dela, se joga uma positiva (como nos exemplos dados), talvez estejamos mais acostumados com esse tipo de estratagema. Se é assim, será mais difícil notar quando fazemos o inverso, quando soltamos uma mensagem aparentemente negativa que traz, implicitamente, uma idéia positiva, como é o caso do nosso “defeito perfeccionista”. Vamos ver então um outro exemplo desse último tipo, um cliente meu que sempre se apresentava de modo muito humilde. Embora pertencesse à classe média alta, ele sempre se colocava de modo inferior à sua condição cultural e financeira. De formação rigidamente católica, ele se apresentava com roupas mais humildes e piadinhas diversas, que tinham por objetivo “vender” uma humildade almejada. Ele costumava, por exemplo, falar mal de seus carros assim que os comprava, ainda que novos, reclamando da qualidade ou então no tamanho da dívida que acabara de assumir. Esse comportamento se dava especialmente nas reuniões familiares. Suas reclamações eram imediatamente seguidas de frases positivas de seus familiares. Era um jogo: ele reclamava e os outros se esforçavam em defender sua inteligência e seu status econômico. Ele secretamente adorava isso. Note a natureza do jogo: a humildade (ou a desvalorização de suas conquistas materiais) é apresentada para que o orgulho seja invocado pelos outros.

Voltemos agora ao nosso “defeito perfeccionista”. Na minha experiência com os clientes, posso afirmar que, na maioria dos casos, o aspecto positivo da comunicação não é consciente ao cliente. Normalmente duas coisas o levam a jogar essa frase batida, a primeira e o principal motivo está na tradição – já que todo mundo faz isso, deve ser bom! E em segundo lugar, está uma sensação interna compensadora que traz algo bom quando se fala isso. Esse é o inconsciente abrindo caminho para deixar vazar algo. O quê? Normalmente, o orgulho.

Assim, podemos explicar psicologicamente o mecanismo da seguinte maneira: oficialmente (conscientemente) a pessoa faz um “mea culpa”, ela reconhece um defeito, uma mácula. No entanto, um orgulho inconsciente acaba vazando e distorce a intenção original da mensagem, aproximando-a de um elogio.

Quando o mecanismo está mergulhado profundamente no inconsciente do cliente ele é capaz de jurar até o inferno que vê seu perfeccionismo como um defeito. Note, entretanto, que ele provavelmente terá dificuldade em apontar outros defeitos. Ele dificilmente se reconheceria como preguiçoso, ou implicante, ou mimado, numa entrevista de emprego. É que esses poderiam mesmo ser defeitos! Mas não haveria nenhum problema em reconhecer seu perfeccionismo, ou sua ambição, ou seu excesso de iniciativa… todos “defeitos” bem bonitinhos.

O autoconhecimento passa pela observação atenta dessas incoerências que nos caracterizam. Observando atentamente esses padrões entre o que se diz e o que se sente ou pretende, a pessoa pode conhecer muito do que traz em seu inconsciente. Uma vez que conteúdos do inconsciente são conhecidos (conscientizados), a pessoa tem de assumir automaticamente maior responsabilidade por suas ações e conseqüências, sem poder alegar inconsciência sobre suas ações.

Por esta razão é que eu disse que quem tem consciência de jogar um falso defeito para funcionar como elogio age com uma postura maquiavélica, calculista, manipuladora. Esse não pode alegar inocência em suas ações, embora, como um bom manipulador, ele provavelmente negaria suas verdadeiras intenções, caso confrontado. É mais ou menos como um cara que está secando o decote de uma bonita mulher e, embora estivesse fazendo isso já há alguns minutos e tenha buscado o melhor ângulo com esmero, quando é pego pelo olhar furioso dela, desculpa-se e diz que está muito distraído e nem percebera onde estava olhando… Dentro de alguns minutos ele consegue até encaminhar algumas fotos (do ângulo correto) para seus amigos.

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A OPRESSÃO DO É PROIBIDO PROIBIR

É irônico pensar que as mulheres já foram chamadas de sexo frágil.

Por quê? Bem, olhe à sua volta! Se avistar alguma mulher, ela provavelmente não será nem um pouco frágil. O que falta aos homens nos tempos modernos, em termos de assertividade, segurança profissional e orgulho de sua capacidade executora no mundo prático, parece estar com as mulheres.

Sexo frágil? Não seja ridículo! Nós, homens, é que podemos ser classificados dessa forma hoje em dia. Sim, os homens são na verdade o sexo frágil de hoje.

Se ainda existisse a seção de classificados amorosos nos jornais de hoje, assim seriam os anúncios:

1. Mulher bem resolvida profissionalmente, empresária de sucesso, mas sem sorte no amor, procura homem sensível, que saiba cozinhar com a maestria de um chef de cozinha, além de conhecer a fundo os bons vinhos e ainda declamar poesias românticas capazes de incendiar qualquer coração duro de executiva. Ele também deve ser muito bonito, ter corpo atlético e ser bom de cama (leia-se: conseguir propiciar inúmeros orgasmos à parceira);

2. Homem de coração partido, que já sofreu demais com rejeições amorosas (leia-se: as mulheres o deixam pois não agüentam sua dependência e insegurança), procura mulher compreensiva que o saiba valorizar (leia-se: uma mãe que o saiba mimar, resolvendo todos os problemas do mundo prático). É também necessário que a mulher seja financeiramente independente e que também possua carro e casa própria.

3. Aspirante a modelo masculino busca mulher que saiba valorizar suas ambições profissionais (leia-se: que seja sua patrocinadora, investindo em seus suplementos alimentares, academia, roupas, limpeza de pele e depilação) e particularidades de seu estilo de vida (leia-se: suportar suas inúmeras admiradoras e seus chiliques de menino mimado). Não exige que a mulher seja bonita ou que saiba se vestir, afinal, entende que o verdadeiro valor de uma pessoa está além de sua aparência (leia-se: qualquer mulher sem destaques físicos pode pagar – desde que tenha recursos – por um homem troféu e automaticamente subir em seu status social).

 

Pois é, as mulheres atuais foram educadas como os homens de antigamente, ouvindo de seus pais que deveriam buscar a independência financeira e o poder, no lugar de promoverem sua capacidade de relacionamento e sedução. Já os homens atuais foram educados por suas mães como as mulheres de antigamente, sendo protegidos por elas e elogiados por sua beleza e doçura. Hoje, parece que os gêneros estão invertidos, vemos homens afeminados e mulheres masculinizadas. E eles continuam se atraindo em suas polaridades invertidas, mas os conflitos aparecem em breve dentro do relacionamento.

Ela, que conseguiu o cara mais bonito em seu meio social, no começo adora assistir ao seu ritual meticuloso de preparo e checagem no espelho, o modo como ele criteriosamente seleciona suas roupas e também aquela interminável luta para que o topete fique exatamente na mesma posição de sempre. Depois de alguns meses, ela começa a se irritar “com tanta frescura para sair de casa” e tenta mostrar a ele como ela fica pronta em apenas dez minutos (contando o banho).

No começo, ele é admirado por sua sofisticação à mesa e também pela capacidade de preparar pratos especiais com ingredientes como trufas verdadeiras e aquele azeite que só é produzido por uma fazenda que ele visitou na Grécia (sim, só este azeite é permitido!). Depois de muitos e muitos jantares românticos, a mulher começa a reclamar dessa rotina que ela admirava tanto: “Mas que frescura! Veja se são realmente necessários tantos copos e colheres diferentes à mesa. Antes de te conhecer, eu comia sardinha em lata na própria lata. Às vezes eu usava um garfo! E tem mais, estou cansada de ir para a Europa, pagando tudo, e ficar visitando um monte de caipiras para descobrir ingredientes exóticos!”

Com a amiga ela também se queixa: “Sabe, eu queria que ele fosse mais decidido e seguro, eu tenho que resolver tudo no mundo prático para ele!” Onde está o problema? Bem, estimado leitor, olhe os supostos classificados acima e você verá que a assertividade não estava especificada para o homem. Assim como acontece em nossas vidas modernas, essa era uma exigência para as mulheres apenas.

E os homens, como reagem à decepção neste tipo moderno de relacionamento? Claro que não da mesma maneira que as mulheres, já que eles não conseguem ter a mesma competência na assertividade e segurança de suas reclamações. Assim, as queixas não vêm na forma de críticas diretas (isso só acontece num ataque de chilique), mas principalmente como piadas e ironias. É como se, ao fazer isso, o homem evitasse revelar sua mão no momento do tapa e, assim, não haveria nenhum alvo para o contra-ataque da parceira (elas nunca agiriam de modo dissimulado, pois isso seria coisa de mulherzinha).

Vejamos o mecanismo da ironia. Ele diz, tentando esconder a admiração: “Você viu como sua amiga estava com as pernas de fora hoje? Ainda bem que você não chega nem perto de ser inconveniente assim! É bom mesmo que você não saiba se vestir bem e não ligue para o corpo!” Como se pode perceber, um legítimo elogio para qualquer mulher.

Ele diz: “Nossa, como você critica o investimento que faço em mim mesmo! Você deveria era valorizar o fato de ter alguém que deixa suas amigas admiradas pela sua capacidade em me conquistar, já que você é daquelas que combina camisa xadrez com calça de listras! Não se esqueça de que faço tudo isso por você, apenas por você.”

Para sua melhor amiga (homens assim não tem amigos, eles dizem “se dar melhor” com as mulheres), ele diz: “Você acredita que ela implica até com nossa amizade? Um absurdo! Afinal de contas eu já tinha avisado desde o começo que minhas amigas são muito importantes e que isso não tem nada a ver com o relacionamento. Sabe, acho que ela tem ciúme de você, pode? Ela nem sabe que conto tudo da minha vida sexual para você! Ciúme do quê, então?”

Mas como foi que chegamos aqui? Em tal inversão de papéis?

Passamos por diversas demandas do nosso inconsciente, ou seja, demandas que não podemos conhecer diretamente, pois somos inconscientes sobre elas, mas podemos percebê-las de modo indireto. Se nos dedicamos a essa percepção podemos encontrar padrões inconscientes que podem ser revelados (conscientizados). Esse é um árduo trabalho e que equivale ao desenvolvimento que se obtém na terapia.

Essas demandas do inconsciente sempre nos trazem desafios e perigos. Somos convidados a mudar nossa atitude e isso nunca é uma coisa espontânea, porque não gostamos de mudar as coisas.

Para analisar (superficialmente) o que aconteceu com os gêneros em nossa atualidade, eu me restringirei ao que conheço melhor: o ponto de vista masculino.

Em minha opinião, o homem (sexo masculino) passou, essencialmente, a última metade do século XX buscando o contato com seu lado feminino, o que se chama de anima na psicologia junguiana. A anima é a alma feminina de todo homem, a contrapartida feminina à nossa personalidade predominantemente masculina. Bem, o problema é que o homem buscou tanto o contato com seu lado feminino que acabou dominado pela anima, ou possuído pela anima, outra expressão usada dentro da psicologia analítica.

A possessão pela anima é um desequilíbrio psíquico, e não uma relação saudável com a alma feminina. É como se o homem estivesse casado com uma mulher autoritária e feminista que restringisse toda e qualquer iniciativa masculina dele.

Um homem possuído pela anima apresenta um sentimentalismo exacerbado, ataques de mau-humor (chiliques) e uma grande insegurança com as situações mais práticas da vida. Grande parte dos meus clientes homens encontra-se nessa situação. Isso faz com que eles tenham a tendência de compensar sua falta de masculinidade buscando uma mulher masculinizada (dominada, por sua vez, pelo animus ou a contrapartida masculina na mulher) e, assim, chegamos ao modelo que explica os cenários de conflito de relacionamento expostos.

O politicamente correto dos nossos dias ajuda a perpetuar esse desequilíbrio psíquico, pois não há mais espaço para análise (discriminação ou classificação) do que quer que seja, por essa ser uma propriedade ligada ao raciocínio, que se desenvolve pela comparação e categorização. Emitir uma opinião analítica, que discrimine padrões, é uma característica do masculino arquetípico (modelo psicológico masculino, imagem masculina) e, atualmente, isso está em baixa.

Hoje em dia somos pressionados a dizer e a fazer exatamente o contrário do mecanismo de um raciocínio analítico: temos de dizer que tudo é igualmente bonito e importante e que há exatamente o mesmo espaço para toda e qualquer coisa!

Não se pode mais discriminar, ou seja, analisar! Não se pode mais medir uma coisa em relação à outra sem ser chamado de preconceituoso. Tudo é bonito, importante e necessário! Como conseqüência, não se pode mais ter uma opinião. Pelo menos não se você for homem. Opiniões e preferências são vistas hoje, quando comunicadas por um homem, como discriminação e machismo.

Um conseqüência perversa disso é que o homem entrou numa profunda crise de identidade, ele já não sabe o que pode ou não dizer. Na dúvida, acaba partindo para uma atitude passiva perante a vida e os relacionamentos. Ele acaba se afeminando.

Se alguém me chamar para andar de bicicleta e eu negar, posso ser questionado sobre o motivo disso. Se eu disser – o que é a verdade – que não gosto de andar de bicicleta e que prefiro dirigir, serei instantaneamente acusado de preconceituoso! Eu poderia argumentar que os ciclistas é que são preconceituosos com meu carro e meu estilo de vida, mas, claro, isso não vale, porque a bicicleta representa o lado bom da força e o carro não…

Se alguém me chamar para participar de uma atividade de dança tribal, ou para abraçar árvores, ou para meditar, ou para ser vegetariano ou qualquer coisa que pareça bonita e do bem nos dias de hoje, eu provavelmente terei problemas ao dizer não (aliás, não gosto de nada do que citei) e quase que certamente serei chamado de retrógrado, preconceituoso, machista e comedor-de-criancinhas-no-café-da-manhã!

Eu, como homem, sinto-me oprimido nos dias de hoje. Estamos vivendo em uma espécie de ditadura e o slogan desse movimento totalitário está aqui: “É proibido proibir!”

Se o mesmo princípio valesse quando eu era criança, no futebol teríamos sempre que escolher para o time, em primeiro lugar, o menino gordinho que não jogava nada e nem conseguia correr, com medo de que sua mamãe nos acusasse de discriminação. Ainda teríamos de elogiar sua performance, mesmo que ele acabasse com o time. Esse gordinho poderia crescer e exigir que os outros o entendessem e o promovessem sempre que ele estivesse abaixo da média em sua performance. Como você pode ver, esse seria o caminho do desastre, porque essa pessoa não seria tolerada pela sociedade por sua arrogância e infantilidade. Ele estaria fadado ao fracasso econômico e social. Ainda bem que esses tipos não conseguem ir muito longe, exceto se esse gordinho tivesse como sobrenome Trump e estivesse disputando a eleição do país mais poderoso do mundo.

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NA PAREDE ERRADA

Quem não quer se dar bem na vida?

Não, não vamos entrar nas bobagens do tipo beleza interior ou exaltação da alma, vamos direto ao ponto: fama, sucesso e dinheiro! Como já disseram os Beatles: “Money don’t get everything it’s true/ What it don’t get I can’t use/ Now give me money (that’s what I want)”.

A maioria das pessoas que procura terapia, pelo menos na minha experiência, parecem secretamente cantar essa música e também parecem apoiar a letra. Isso não deixa de ser irônico, já que, como diria minha avó nos anos setenta, “terapia é para quem não tem o que fazer e dinheiro de sobra!”, e acho que muita gente concordaria com ela – secretamente, claro, pois seria impossível expressar tal pensamento em nosso mundo politicamente correto.

O caso é que muitas pessoas chegam até a terapia depois de tentar de tudo sem sucesso. Cursos, imersões, livros de auto-ajuda, pensamento positivo, vodu e nada de o universo conspirar para seu sucesso! O decepcionado acaba pensando: “quem sabe essa tal terapia tem alguma coisa que funcione?”- e lá vai ele para sua hora semanal de análise.

O irônico nisso tudo é que, normalmente, não é a dor da alma que traz a pessoa ao consultório, mas sim a impossibilidade de conseguir satisfação por meio do sucesso alcançado (junto com o dinheiro e a fama, claro). E é ainda mais interessante notar que o pedido de socorro do homem é geralmente diferente daquele da mulher.

O homem chega normalmente na sua meia-idade dizendo que se sente inseguro quando ao futuro (não se iluda, ele não está falando sobre a vida após a morte ou se nosso mundo um dia conquistará a paz mundial, não, ele está falando sobre seu futuro profissional e econômico). Ele diz que tem muito medo de acabar mal na vida (lembre-se, não se iluda, ele não está falando de modo filosófico!) e que todo seu esforço e disciplina possam ser perdidos. Ele sente a limitação da idade que se aproxima e isso tira seu sono.

A mulher chega normalmente se queixando de falta de sentido na imensa quantidade de obrigações que ela processa diariamente. Ela não está reclamando do dinheiro e muitas vezes está até bem orgulhosa de seu desenvolvimento profissional (embora nunca queira parar de subir, claro), mas sua principal preocupação está na falta de satisfação de seu modelo de sucesso.

E o que esses dois personagens genéricos querem da terapia? Eles querem mais! Cada um do seu jeito. O homem quer mais poder (leia-se garantia de vitalidade física e profissional) e a mulher quer mais satisfação nas coisas que ela faz (leia-se projeto de vida).

Depois de muitas outras tentativas de pouco sucesso, eles, desesperadamente ansiosos (às vezes, deprimidos) resolvem tentar a terapia. O possível problema, nesse caso, está relacionado a esse termo: “tentar”. É que tentar muitas vezes é traduzido como um teste, não para ver se há afinidade entre com o terapeuta e nem para saber se há verdadeira entrega em sua busca, mas sim um teste que visa uma avaliação pragmática, uma avaliação de desempenho. A coisa é tão simples e previsível que qualquer burocrata empoeirado, com estabilidade, do governo poderia resolver a questão: basta imaginar um gráfico “número de sessões x porcentagem de resolução do problema”. O cliente pensa: vou tentar algumas sessões e verificar se isso resolve meu problema (sucesso material e satisfação pessoal com o sucesso). Esse cliente durará pouquíssimas sessões e encerrará sua aventura dizendo algo como: “gosto muito das nossas conversas, mas eu ainda não vejo como isso pode garantir meu bem-estar em alguns anos”.

Eu nem perco tempo, já informo ao cliente que o processo terapêutico não tem como garantir nem o sucesso, nem a satisfação e que, aliás, normalmente o problema está em algo nem imaginado previamente pelo cliente (senão ele já teria resolvido suas ansiedades). Ironicamente (e quantas ironias não existem dentro do processo de terapia?), o problema não está em se conseguir mais sucesso material, mas sim exatamente na adoção de reflexões e posturas mais espirituais!

O processo terapêutico, nesse sentido, pode ser visto como sua sogra: você pede algo bem específico a ela e ela te entrega exatamente o contrário! Mas, ao contrário da sua sogra, a terapia não faz isso como um capricho pessoal (sob a justificativa velada de que a filha ou o filho poderia ter conseguido coisa bem melhor do que você). Isso costuma ocorrer na terapia porque a análise ultrapassa a limitada esfera de desejos do ego, do consciente, e nos faz entrar em contato com o inconsciente que, por sua vez, costuma surpreender com demandas que parecem ser opostas ao que desejamos conscientemente em determinado momento.

Se você está na segunda metade da vida, é provável que o inconsciente apresente questões muito mais profundas do que um simples problema de satisfação, fama ou sucesso material. Nesse momento, o cliente olha para seu gráfico cuidadosamente elaborado e tem uma dupla frustração: 1. a terapia provavelmente não resolverá o que ele julga ser seu problema e 2. embora se sinta mexido por todos os conteúdos levantados em seus sonhos (conteúdo inconsciente), ele nota que isso tudo é muito difícil de se atender, a não ser que ele mude… E quem gosta de mudar?

O auto-conhecimento por meio da exploração dos conteúdos do inconsciente é um caminho de grandes sacrifícios pessoais. Para piorar a situação, esse é também um caminho muito, muito lento. Alguém aí se candidata?

Digo aos meus clientes que apenas os desesperados são capazes de passar pela verdadeira terapia. O remédio é bem amargo, talvez um dos mais amargos do mundo! Mas para aquele que sofre de verdade em sua alma, para aquele que julga estar no inferno, esse remédio da terapia terá um sabor maravilhosamente doce.

Tudo isso te parece uma conversa “viajante”? Coisa de maluco? Cuidado, pois esse tipo de percepção pode indicar que você está apenas preocupado com o mundo exterior (carreira, dinheiro, sucesso) e está se esquecendo do outro lado que também é muito importante.

O magistral Joseph Campbell, que ousou contrariar a orientação geral da sociedade ocidental e também de sua época, heroicamente desenvolveu uma carreira fundamentada no estudo de mitologia (coisa para a qual ninguém dá a mínima – ou quase ninguém) e até hoje nos enche de esperança e inspiração com suas histórias. Ele costumava contar com freqüência a anedota de um homem bem sucedido, que galgara com imenso esforço cada degrau da escada corporativa e, finalmente, ao atingir o nível mais alto, notou, com imensa decepção, que a tal escada estava apoiada na parede errada.

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BAD BOYS ATÉ PODEM SER BAD MAS NÃO PASSAM DE BOYS!

Não entendo nada de música e nem consigo cantar direito, mas gosto de comparar os estilos musicais, ou ao menos do jeito de cantar, de diferentes épocas, e também gosto de arriscar uma análise psicológica disso. É o que vou tentar aqui.

O jazz, um estilo musical de contestação, contagiante, que se apresentou a partir da época da depressão americana, é um imenso prazer de se ouvir, a qualquer momento. Pode-se sentir a vibração de protesto e de quebra de regras do padrão musical vigente na época. Podemos sentir a mistura de sofrimento e diversão que as raízes negras desse estilo musical nos transmitem. Tudo parece mágico, genuíno e espontâneo (aliás, bem de acordo com uma das características do jazz, que é a espontaneidade). O jazz dessa época é como o Pelé ensinando os ingleses sobre a arte da transgressão em seu próprio jogo. Para mim, a excelência desse estilo musical é a comprovação de que a opressão pode estimular o que há de mais genuíno e talentoso no ser humano e podemos ser iluminados ao entrar em contato com esse produto. O jazz é a bela resposta dos negros ao sofrimento e discriminação que sofriam.

Um pouco mais à frente no tempo e temos as músicas de rádio da década de 40 na Inglaterra, também inspiradas pela opressão – dessa vez, pela segunda guerra mundial. Gosto bastante dessas músicas! Poderia falar de diversos aspectos da música dessa época, mas vou me concentrar num deles apenas: o jeito de cantar. Nessa época pré rock and roll, as vozes eram extremamente melodiosas, as palavras pronunciadas com cuidado e classe e, a coisa que mais me chama a atenção: homens tinham voz de homem e as mulheres, voz de mulher. Hoje em dia eu quase sempre fico em dúvida sobre o gênero de quem está cantando, isso não acontecia naquela época. Como parecem firmes e caprichadas as vozes masculinas e como são sedutoras e doces as vozes femininas!

Minha adolescência se deu na década de 80, então minhas influências iniciais da música também estão presas a essa época, em especial o estilo heavy metal. Com isso eu cresci pensando que cantar era ser capaz de sustentar um grito bem agudo pelo máximo tempo que seus pulmões agüentassem e suas cordas vocais não te enforcassem. Era como se todo mundo tentasse ser um tipo de Axel Rose no microfone, não por causa de seu gosto por bermudas de lycra (coisa impensável antes dos anos 90 – aliás, na verdade, impensável até hoje), mas pela sua capacidade de perfurar seus tímpanos ou de te enlouquecer – o que ocorrer primeiro.

Bom, eu não conhecia outros tipos de estilos musicais, então essa era minha referência. Aliás, minto, por causa dos meus pais, eu era exposto, vez ou outra, ao estilo disco dos anos 70, mas isso não era o suficiente para fazer algum contraponto significativo em minha educação musical. Tomemos como exemplo umas das bandas disco mais bem sucedidas da história, os Bee Gees. Vamos ver: cantavam com excesso de agudos? Sim, suas vozes eram mais finas do que a da Kate Bush depois de inalar hélio! Usavam roupas coladas e espalhafatosas? Sim. Usavam cabelos compridos? Sim! Vejam, eles qualificariam como uma banda de heavy metal se não fosse pelo estilo musical. Eu apanharia na escola se tivesse feito tal comparação junto aos meus amigos “metaleiros” (ok, eu apanharia se apenas mencionasse os Bee Gees perto deles). Isso também era importante na minha época, metaleiro que se preze tinha de promover sua classe cultural, ainda que as fronteiras que os distinguiam não fossem bem claras, até porque eles eram contra tudo.

Então era isso, se eu quisesse tentar a carreira artística e ter várias meninas no pé, eu precisaria de atitude, que se poderia traduzir como cantar fino (ridiculamente agudo), usar roupas que ficariam melhores nas mulheres, deixar o cabelo crescer bastante (e ficar parecido com uma mulher!) e, claro, por que não, adotar maquiagem (assim como o Kiss) e jóias e cabelos pintados! Ou seja, para ter sucesso como vocalista de heavy metal eu teria de ficar parecido com uma mulher!

Se eu dissesse na escola dos anos 80 que o pessoal de heavy metal parecia um bando de mulheres, eu teria apanhado mais do que se os tivesse comparado aos BeeGees, porque, ironicamente, o pessoal do heavy metal gosta de se ver como um bando de bad boys que pegam todas as mulheres e que são até violentos fisicamente! Agora me diga se também não acha isso tão irônico quanto o Hitler discriminar baixinhos, de narizes grandes, franzinos e de cabelos pretos, dizendo que esses tipos são se parecem com a raça ariana? Se o Hitler também tivesse incluído na descrição bigodes ridículos, seu próprio grupo o teria mandado para a câmara de gás.

Eu gostava muito de heavy metal e, como andava com os tipos mais representativos desse estilo, eu também costumava dizer que era como eles.  Mas nem tanto, afinal, o fato de eu não usar cabelos compridos atraía constantes olhares de desconfiança do grupo. A verdade é que eu também gostava de coisas proibidas no grupo, como o Duran Duran (se deixasse a informação escapar, já sabe, surra ou no mínimo um profundo escárnio público – coisa a ser temida quando se é um inseguro adolescente).

Na minha época, se você quisesse ser metaleiro, teria de ser capaz de integrar os opostos de suas atitudes com maestria, pois teria de se vestir e cantar como mulher, mas dar provas inquestionáveis de que era um machão (arrumando brigas e pegando todas as meninas que se deixassem pegar). É mais ou menos como se o Mike Tyson se esforçasse para ser aprovado numa apresentação de balé (vestindo a saia tutu) ou ainda pior, se a Ronda Rousey tivesse que dançar balé.

Passada a puberdade, comecei a expandir um pouco meu universo cultural, entrei em contato com as músicas de outras épocas do século XX e fiquei absolutamente espantado com as diferenças de estilo. Em vez de roupas de mulher, os homens usavam trajes sociais; no lugar dos gritos agudos, som melodioso e masculino; no lugar dos cabelos sujos e compridos, gel e cabelos curtos! Ah, sim, e as mulheres se vestiam e cantavam de modo sensual em vez de falarem palavrão e cuspirem no palco, depois de vomitarem de tão bêbadas.

Como podemos explicar tal evolução nas atitudes e modos de expressão artística? Não posso deixar de arriscar uma teoria psicológica. Vamos lá.

O rock and roll é por definição um movimento rebelde e subversivo com relação ao status quo. Antes da segunda guerra mundial, os mais velhos eram o modelo de vida para os mais jovens; depois disso, a coisa começou a se inverter. Os jovens declararam autonomia em relação ao antigo sistema de referência: a família pessoal, a realeza e a igreja. Esse foi um movimento inconsciente que podemos analisar apenas agora, depois de muito tempo (se estivéssemos lá naquela época não teríamos consciência do movimento que tomava força, simplesmente algo maior – inconsciente – nos impeliria na direção desse movimento). O rock and roll, com suas raízes nos anos 50, estabelecia muito bem esse movimento de ruptura com o tradicional; a partir de então, a rebeldia foi iniciada inclusive na música.

Os Beatles usavam ternos, mas seus cabelos eram compridos demais para a época, um verdadeiro escândalo. Os mais velhos devem ter ficado horrorizados com essa rebeldia que era capaz de atrair multidões. Mas o Beatles eram uma rebeldia sem o toque apimentado do sexo. Isso, na minha opinião, quem trouxe foram os Rolling Stones. Mick Jagger, o vocalista dos Rolling Stones, era a epítome da rebeldia dos novos tempos de sedução para o sexo, sedução que, agora era feita pelo homem (Elvis já havia iniciado essa linha com seu quadril que parecia estar solto do restante de seu corpo, tal era sua capacidade de movimentá-lo).

Psicologicamente falando, o homem foi chamado a entrar em contato com seu lado feminino, com sua anima (a mulher interna no homem). Com isso, ele adquiriu a capacidade de sedução de uma Marilyn Monroe (ou quase), além de incorporar com naturalidade apetrechos e atitudes tipicamente femininos. Se o homem, no entanto, incorporar demais essa porção psicológica feminina, ele perderá seu equilíbrio e poderá ser possuído pela anima, o que poderá lhe causar uma série de problemas, mas isso é assunto para uma outra conversa.

Noto hoje em dia alguns sinais de que o pêndulo psicológico começou a voltar, depois de atingir um limite na direção da incorporação do feminino pelo homem (e do masculino pela mulher, o animus) – dentre eles, destaco o movimento retrô que está fazendo muitos artistas repensarem suas atitudes e imagens, como Kate Perry e o Postmodern Jukebox, além de vários outros. Ah, como é bom ver as mulheres retomando o contato com a sensualidade e outros atributos femininos! Pode me chamar de retrógrado se quiser! A verdade é que, com o movimento retrô, eu estou automaticamente entrando na moda e sem ter de fazer nada para isso. Antes eu me vestia como um velho, tinha corte de cabelo de velho e usava óculos de velho, agora eu estou na moda.

Apesar do movimento retrô, ainda encontro com facilidade os reminiscentes do estilo heavy metal. Vários grupos de sucesso como o Metallica, o AC/DC e o alemão Ramistein continuam por aí. De modo geral, noto que o visual está melhor adaptado aos tempos retrô, os cabelos, por exemplo, estão bem mais curtos, no estilo militar, e as roupas, mais discretas. Uma coisa, no entanto, não mudou: as letras.

As músicas continuam falando dos seguintes temas: 1. bicho-papão e 2. supostas ousadias sexuais que ocorrem na festa de formatura do ensino fundamental. Ousarei escrever dois temas genéricos para resumir as músicas:

1. Um dia ele chegará na calada da noite e destruirá sua vida/ Não adianta gritar onde não tem ninguém para ouvir/ Sim ele virá e você irá se f… Yeaaaah!

2. Louco, louco/ Passei a noite com a Rita e acordei com a Bia e a Jennifer!/ Mulheres, mulheres por todos os lados! Yeaaaaah!

O primeiro tema pode ser associado ao receio do contato com os conteúdos do inconsciente. Sim, dá medo mesmo! E o segundo tema, com a descoberta do poder do sexo. Sim, é impressionante! O problema é que se canta sempre a mesma coisa e o enfoque está mais para as ameaças de se deixar a infância do que para os conflitos de homens adultos.

Quando vemos a atitude de quem se recusa a envelhecer, como a do Mick Jagger, ficamos com a impressão de que esse homens adultos do rock (no caso citado, um idoso) cantam mesmo sobre o medo de crescer e enfrentar a vida como adulto (bicho-papão) e também sobre o medo de perder a performance sexual juvenil. 

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AS ROUPAS DO HOMEM E O EQUILÍBRIO PSÍQUICO

Comprar roupas tem se transformado numa tortura ainda maior do que a tradicional chateação de brigar por uma vaga no shopping e de driblar diversos vendedores que parecem dispostos a te convencer de que absolutamente qualquer coisa que você olhar ou pegar “fica ótimo em você!” Nem o tamanho importa, afinal, não é que está grande, mas sim que “a roupa não ficará limitando seus movimentos!”; também não é que está pequeno, apenas que “esse visual mais justo te dará um aspecto mais jovem!”. Admiro essa capacidade de encontrar algo positivo em tudo, até mesmo no que ficou ridículo.

Falando em ridículo, creio que esse termo possa definir bem o aumento no tamanho da tortura que envolve a compra de roupas. Para o homem de meia-idade que sou, tudo o que vejo nas vitrines (e fora delas, andando pelo shopping) me parece ridículo.

Quando eu era criança, eu gostava bastante de tênis, bermuda e camiseta, mas agora eu sou um adulto e sinto que preciso apresentar uma imagem que me diferencie de um adolescente! Simplesmente porque não sou mais um adolescente e também não estou de férias numa praia, local ao qual essas roupas pertencem.

Quando se consegue ver algo diferente disso, temos uma infinidade de calças jeans que, além de tradicionalmente informais e grosseiras, hoje vêm com manchas e rasgos (mesmo quando novas em folha!) ou são cortadas de modo tão justo ao corpo que, caso você consiga entrar numa delas, não conseguirá andar ou sentar. Estamos agora na moda slim, que significa que todo mundo deve ter uma silhueta muito magra, mas é adotada mesmo por quem não tem essa silhueta – vemos por aí vários senhores em formato de um quibe, pois apertam as pernas finas, mas a barriga não cede…

De modo geral, as roupas masculinas estão cada vez mais enfeitadas e cada vez menos formais, isto é, cada vez mais infantilizadas. Alguns defendem que isso seja bom, como um modo de nos libertarmos da formalidade. Não sei bem que formalidade é essa, mas estou acostumado a analisar, com clientes homens, sonhos que pedem para que eles levem a vida mais a sério, em seus aspectos sociais e profissionais. Clientes muito descontraídos e informais têm, normalmente, um chamado inconsciente para que construam uma base mais formal em sua vida. As roupas podem ajudar nisso, mas não as roupas da moda.

Obviamente eu não entendo nada de moda e, talvez, por isso, possa notar algo comum à maioria das vestimentas modernas: a infantilização. As roupas querem nos rejuvenescer, não em 5 ou 10 anos, mas a moda dominante quer nos enviar ao início de nossas adolescências. Usamos roupas de meninos! Se isso continuar, podemos ter em breve uma moda bebê para homens de meia-idade e sairemos de casa em confortáveis roupas inteiriças, que cubram nossos pés também, quem sabe até com chupetas na boca?

Eu uso roupas formais: terno e gravata. Por três razões principais: 1. É a roupa de homem adulto, feita para ressaltar as formas masculinas (origem no uniforme militar), sem depender tanto de se ter um corpo em forma; 2. É simples de combinar: você não tem de pensar muito sobre o que vestir, se as roupas estiverem bem ajustadas ao seu corpo, basta se preocupar com a cor da gravata e pronto, tudo sempre ficará bom; e 3. Por causa do custo-benefício. Essa observação costuma surpreender muita gente que sabe que as roupas formais são bem mais caras, mas é por isso mesmo que também duram mais. Se forem de boa qualidade mesmo, elas podem até ser ajustadas às mudanças do corpo. Meus ternos duram mais de dez anos e os sapatos mais de quinze!

O drama de se comprar roupas está resolvido com as roupas formais? Hum… não!

Saia em busca de um terno em uma boa loja de shopping e verá as mesmas coisas inventadas e justas das outras vitrines na versão duas peças! E olha que um terno tem de ter proporções ditadas pela silhueta do cliente, numa relação matemática com o aspecto que se deseja ressaltar ou esconder, portanto a moda nunca poderia entrar nisso! As lapelas estão sumindo e a coisa toda anda tão apertada que se pode mostrar as veias do corpo do cliente sob um fio de lã 150. Isso sem falar nas calças, cuja cintura está tão baixa que as barrigas avantajadas fazem com que as fivelas dos cintos fiquem apontando para baixo. Como pode a moda influenciar assim o que se chama de “moda permanente” quando se refere à tradicional roupa social masculina?

Se tiver como investir um pouco mais, você poderá procurar um alfaiate e aí, então fazer algo exatamente como deseja, escolhendo o tecido e cor de sua preferência e contando com um profissional que sabe exatamente a diferença entre a boa proporção e o ridículo, certo? Bem, não necessariamente. Tive de testar alguns alfaiates até encontrar um que soubesse realmente a diferença apontada.

Quando tive a coragem de ir até um alfaiate pela primeira vez, achei que iria adentrar a caverna secreta masculina, o templo do bom gosto, o lugar em que a roupa seria projetada de acordo com a tradição e a lógica, não de acordo com as variações incessantes da moda. Achei que o alfaiate iria abrir meus olhos para os ideais das proporções buscadas nas roupas masculinas. Não aconteceu nada disso. As roupas ficaram apenas razoáveis e eu mesmo tive de estudar muito para entender no que mexer e como, simplesmente para poder orientar e corrigir as próximas peças.

Em defesa dos alfaiates, reconheço que não procurei logo de cara um lugar caro, pois não teria como arcar com isso. Imagino que lugares mais caros (bem mais caros) possam ter outro padrão de qualidade. Em segundo lugar, notei, ao longo dos anos, que muitos alfaiates estão se esquecendo das regras sagradas de suas profissões para sobreviver. Eles já são uma classe em extinção e estão é tentando seguir a moda para sobreviver. Mas como a moda masculina atual é dominada pelo mau-gosto e infantilidade, os alfaiates mais antigos estão ficando com crise de identidade. Não é fácil se esquecer do bom gosto quando sua profissão mexia exatamente com isso.

Mas por que alguém deve se preocupar com isso?

Como tudo que envolve nossa psique, não poderei dar uma resposta objetiva e que possa ser aplicada a todos. O que sei é que, de acordo com minha experiência com clientes e alunos, vejo cada vez mais homens sensíveis e passivos. Quando chego a analisar seus sonhos, vejo também com freqüência um pedido do inconsciente no sentido de trazer um pouco mais de assertividade e disciplina para o mundo. Para aqueles que têm esse chamado – o que, na minha experiência, ocorre com a maioria dos homens atualmente – essa moda atual poderá atrapalhar fortemente o atendimento do pedido do inconsciente.

É difícil ser assertivo de calças curtas ou bermudas! A moda é infantilizada e defende enfaticamente o conforto e a informalidade. Um homem que esteja vestido de acordo com esses preceitos poderá ter uma dificuldade muito maior com seu desafio interno de desenvolver a assertividade. Por que será que os grandes líderes mundiais também não se apresentam de acordo com a moda? Tenho certeza que você não se sentiria muito confortável com essa visão.

E se o chamado for também para que o homem leve as coisas mais a sério em sua vida, com mais disciplina em seu trabalho, por exemplo, também será mais difícil levar tal desafio a cabo dentro de roupas que se comunicam com você e com os outros passando a mensagem de que elas são “relax”.

Um cliente uma vez me disse que gostava de ser único no seu modo de se vestir (quando falava de roupas sociais que eram exigidas em seu trabalho), mas seus sonhos traziam a tradicional cobrança para crescer e construir uma imagem sólida e assertiva (ele já beirava os quarenta anos). Argumentei que mesmo nas roupas formais havia grande variedade de combinação de cor, estilo e tecido. Ele dizia que isso não era suficiente. Esse é outro aspecto comumente encontrado no discurso masculino: todos querem ser únicos em suas imagens! Mas, veja que interessante: se todos se vestirem de modo único para fugir de um padrão, então todos agora estabelecem um novo padrão, o que todo mundo tem de ser diferente! Como resultado, vemos pelas ruas personagens que poderiam ter saído de uma história em quadrinhos, de tão caricatos. Isso é viver no mundo virtual enquanto o mundo real o aguarda.

Nossa sociedade está tomada pelo arquétipo do eternamente jovem, o puer aeternus. Nós até retomamos brinquedos infantis, como a bicicleta e o skate, como nossos veículos cotidianos – é bem estranho ver um homem de barba branca numa bicicleta, indo trabalhar todo paramentado. De skate então, nem se fala! Se seu chamado interno é no sentido de crescer a assumir a vida adulta, fique atento aos perigos à sua volta, e, em especial, medite sobre seu estilo de se vestir.

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A SOMBRA COLETIVA EM DOIS FILMES DE KUNG FU

Ainda influenciado pela trilogia do mestre de kung fu Ip Man, quero aproveitar essa interessante possibilidade de ver como o povo oriental pode projetar aspectos de sua sombra nos ocidentais. Nós, ocidentais, certamente fazemos o mesmo com eles, mas, como a projeção se dá a partir de conteúdos inconscientes, é difícil notar quando o fazemos, a não ser que você estivesse vendo a coisa a partir do outro lado do balcão. E é por essa razão que essa é uma oportunidade interessante, pois podemos avaliar a visão oriental sobre nós, ocidentais.

No filme Ip Man 2 os ocidentais são terríveis. Os britânicos no comando da polícia de Hong Kong são irremediavelmente corruptos e só pensam no próprio bem estar e no que podem levar de vantagem. Como se não bastasse, os ocidentais ali retratados são também extremamente arrogantes, desprezando tudo que possa ser considerado como necessidade ou tradição local. Quando julgamos ser impossível exagerar mais nessa caricatura do mal, somos apresentados ao “lutador ocidental” (e por que temos de ter um lutador?), que parece uma versão anabolizada e boxeadora do Donald Trump. Ele parece ter a arrogância incorporada em seu DNA. Toda as suas palavras são ofensivas aos orientais e ele desafia qualquer um para o ringue. Seu nome: Furacão.

Assim como o Donald Trump, o Furacão parece tomado por um complexo de inferioridade que, ironicamente, faz a pessoa vazar arrogância por todos os poros do corpo. Se ele fosse mostrado em seu carro, certamente seria um Humvee ou – por que não? – um tanque de guerra com um imenso canhão para compensar algo que faltasse em seu íntimo – psicologicamente falando, claro.

É realmente irônico perceber que muitas vezes a arrogância incontida não passa de uma tentativa desesperada de compensar um sentimento inconsciente de inferioridade. É como se, no íntimo, todo arrogante tivesse um inimigo profundo conhecedor de um terrível segredo: o de que, na verdade, ele não é de nada! Como essa sensação é inconsciente (isto é, não se pode conscientemente saber disso), o arrogante encontra o inimigo em algum outro lugar; ao invés de procurar dentro de si, ele vê o inimigo fora, no próximo: isso é o que chamamos de projetar (projeção de conteúdo inconsciente).

Os sonhos dos arrogantes são terríveis! E sei o que estou dizendo, conheço bem os meus próprios sonhos também, há muitos anos…

Um empresário de sucesso sonhou que estava nu em uma importante reunião com seus funcionários e que todos riam de sua condição inferior no encontro. A imagem falava de seu despreparo para lidar com pessoas e com os assuntos chatos e rotineiros da empresa. Na vida real ele se defendia disso cercando-se de auxiliares e dizendo que não tinha tempo para detalhes, pois seu talento não poderia ser sacrificado com coisas tão banais. O sucesso de seu empreendimento parecia justificar sua arrogância, mas o sonho revelava ao próprio arrogante a inferioridade que era percebida por todos.

Num outro caso, um pai de família, já na casa dos quarenta anos, com grande dificuldade de permanecer e se desenvolver num emprego, dissertava por horas, sessão após sessão, sobre como o mundo era injusto. Ele dizia que o “sistema” exigia que ele vendesse sua alma, mas que ele nunca cederia a isso. Um dia ele sonhou que fora trabalhar num carro de fórmula um e que esse acabou encalhado a poucos metros da partida, ao passar por um buraco, o qual todos os outros carros, bem mais simples na tecnologia, superavam com extrema facilidade. Seu sonho criticava seus princípios arrogantes que, de tão sofisticados, impediam a superação de simples obstáculos do cotidiano. Claro que, conscientemente, esse homem tinha certeza de que o problema estava no mundo (no “sistema”) e não nele mesmo.

A história do Furacão, caso ele fosse um personagem real, provavelmente teria um contexto psicológico parecido. Mas ele não é real e por isso mesmo fica ainda mais interessante. Ele foi projetado por cabeças criativas orientais. Os orientais que o criaram fizeram, provavelmente de modo inconsciente, uma ótima representação de seus próprios aspectos sombrios!

O oriental se orgulha de sua submissão a figuras de autoridade – pelo menos no filme, essa é sua postura consciente. Ele reconhece isso como bom e o promove conscientemente. Inconscientemente, porém, o movimento contrário é automaticamente iniciado, para compensar um excesso na atitude consciente. Mas, se esse oriental não pode questionar a autoridade, por causa de seus elevados ideais, quem o pode fazer? Nós, ocidentais, claro. É onde entra o Furacão. Ele xinga os chineses com uma desenvoltura que faria Trump se envergonhar. Ele diz que o “boxe chinês” não passa de uma dança e já sai batendo em uma dúzia dos tais dançarinos, para a revolta geral da audiência no ringue. Ele desafia e claro, mata no ringue, um dos principais mestres (roteiro típico desse tipo de filme). Na visão da psicologia, tal excesso só pode ter uma explicação: trata-se da sombra inconsciente dos orientais que escreveram e produziram o filme! E provavelmente, por causa do sucesso da produção, essa é a mesma sombra da maioria dos orientais. Eles desejam inconscientemente desafiar e ser arrogantes, mas não podem, por causa da orientação consciente e, assim, nós é que somos chamados de arrogantes!

O Furacão e os policiais arrogantes e corruptos representam bem conteúdos da sombra coletiva oriental. Espero que, com o tempo, alguns bravos orientais comecem a se atentar para o que está dentro deles mesmos, para que possam nos livrar do peso de carregar esse tipo de projeção.

E o mesmo vale para nós, ocidentais. Afinal, também adoramos retratar orientais como fracos, franzinos e infantis (senão bobos mesmo), como vejo a todo momento em nossos filmes, e isso é provavelmente uma projeção de nossa sombra coletiva sobre outros povos.

É isso, acho que o Trump deve sonhar com um imenso estereótipo: um humilde chinês, que teme seu mestre, que não tolera bebida, que adora a proteção dada pelo comunismo, que quer dormir o maior tempo possível e que, claro, tem um pênis muito pequeno.

No Ip Man 3 temos lá, novamente a polícia corrompida por ocidentais inescrupulosos e ainda um outro ocidental que comanda uma gangue do mal. O que essa gangue faz? Vende drogas? Trabalha com contrabando? Não, isso tudo seria estranho num filme de luta. Precisamos encaixar brigas, muitas brigas nesse roteiro, senão o filme entraria no roteiro policial simples, com armas e perseguição automobilística, e aí sobraria pouco espaço para as lutas corporais, sem armas, ou apenas com um bastão ou uma faca (mas nunca na mão do herói!). Nesse roteiro, a gangue obriga pessoas a venderem, sob condições injustas, suas propriedades para eles (parece que o espaço em Honk Kong é realmente disputado a tapas) e nosso herói Ip Man irá defender a escola local contra a tal gangue.

O chefe dessa gangue é ninguém mais, ninguém menos, do que o bad boy Mike Tyson! Excelente! Por que não um criminoso que anda armado? Não nesse filme! O personagem interpretado por ele é, adivinhe, um lutador que, além da extorsão, organiza – adivinhe – campeonatos de luta! Adoro essa previsibilidade dos filmes de arte marcial.

O Mike Tyson da vida real já seria um bom receptor para a nossa própria sombra ocidental, por causa das confusões em que ele já se meteu (especialmente a de morder a orelha de seu competidor, quando perdia a luta), imagine então o quanto ele é ideal para a sombra do oriental!

Na cena final do filme ele desafia o Ip Man para um duelo de 3 minutos, prometendo parar de persegui-lo caso ele sobreviva. É o confronto da brutalidade contra a elegância, da força primitiva contra a leveza equilibrada. É o mal em toda sua grosseria contra o bem em toda sua pureza!

É muito importante que cada um (os orientais inclusive) procure encontrar dentro de si esse antagonista e procure conhecê-lo e saber de suas intenções e ameaças. É importante reconhecê-lo dentro de cada um de nós, não no suposto inimigo (ou na cultura que nos é estranha).

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A INFANTILIDADE E O LUTADOR DE KUNG FU

Neste final de semana eu assisti a todos os episódios da trilogia Ip Man, que trata da vida (deliberadamente enfeitada e idealizada) do mestre Ip, um chinês, lutador de kung fu e que teve muitos discípulos famosos, em especial, Bruce Lee.

Talvez eu tenha criado, com essa introdução, a expectativa de que irei criticar ferozmente um filme de que não tenha gostado, mas não é nada disso. O filme (acho que foi feito em Hong Kong) é surpreendentemente bem feito e me atraiu do começo ao fim por diversas razões, em especial pela precisa encenação das lutas. Gosto bastante de ver tais seqüências. Aliás, foram filmes assim, mas de qualidade bem inferior, que me incentivaram a me matricular numa escola de kung fu quando eu tinha uns 13 anos de idade. Gosto muito de reconhecer os estilos de luta e os tipos de movimento do corpo, esforcei-me por muitos anos para fazer bem muitos desses mesmos movimentos. Treinei kung fu até uns vinte e poucos anos de idade.

Eu poderia agora fazer uma longa dissertação sobre os motivos que me levaram a treinar kung fu, falando extensivamente da profunda filosofia e moral que existe por trás dessa arte, mas a verdade é que, assim como 99,9999% das pessoas que treinaram comigo, o que eu queria mesmo era ter o poder de usar meu corpo de forma precisa e letal contra qualquer ameaça.

Se você é homem e passou o início da puberdade no mundo normal, isto é, numa época em que as pessoas que queriam arrumar encrenca com você não eram ainda classificadas como “bullies” e contidas e mandadas para o psicólogo, você saberá instantaneamente o porquê dessa minha preocupação com as ameaças físicas. Não sei como os meninos liberam seus impulsos agressivos hoje em dia, em nosso mundo politicamente correto e vigiado, mas na minha época esse impulso agressivo era em grande parte liberado pelos punhos. E não adiantava nada fingir que você acreditava na resistência pacífica, a encrenca chegaria até você de um jeito ou de outro. Eu, um tipo franzino, queria sim me defender, mas não somente isso (confesso), queria mesmo era dominar, e estava ansioso para ver como o kung fu poderia me ajudar nisso.

Meu estilo inicial era o garra de águia (depois troquei de mestre e de estilo, para o louva-a-deus). Fiquei decepcionado ao ser comunicado pela primeira vez do nome do estilo, pois falávamos em “águia” e não “tigre” ou “dragão” e eu achava que o nome poderia ser mais masculino, já que se tratava de luta. Ignorância machista pré-púbere. Suei tanto na primeira aula que aprendi logo que não tinha nada de afeminado: notei que a águia-mestre era bem forte, alta, exigente e parecia sempre de mau-humor.

Sonhava que em pouco tempo eu seria capaz de repetir as performances dos filmes de kung fu, especialmente as peripécias do Bruce Lee, claro. Bem, isso nunca aconteceu, mas naquela época eu não conseguia entender a razão, afinal eu era um aluno bem dedicado!

Hoje, olhando a coisa como adulto, junto com os filmes que acabei de assistir sobre o Ip Man, reconheço que o problema estava mesmo na famosa confusão entre o que a tela mostrava e a realidade. Vi gente muito talentosa no kung fu, pessoas que se moviam de modo fluido, impossíveis de pegar, e que acabavam acertando golpes poderosíssimos, mas nunca vi alguém flutuar no ar entre um golpe e outro ou lutar com mais de vinte pessoas sem tomar um golpe e nem mesmo se cansar. Os filmes vendem uma ilusão sobre um excepcional lutador de kung fu, tão excepcional que consegue desafiar a gravidade e fazer com que seus músculos contraiam numa velocidade sobre-humana, isso sem falar no olho adicional que brota na região da nuca.

Nos filmes de arte marcial há inúmeras extravagâncias surreais sobre o desempenho físico do protagonista. Na série Kung Fu, com David Carradine, nos anos 60, o mestre cego via melhor do que qualquer pessoa. No Karatê Kid, dos anos 80, o mestre era capaz de extrair as bocas de garrafas de vidro com a precisão de um diamante (ele também pegava moscas com hashi!). Claro que coisa equivalente acontece nos filmes ocidentais (atiradores que nunca erram e munição que nunca se esgota na arma do herói), mas toda a aura de mistério que envolve as filosofias marciais orientais nos deixa confusos sobre o que realmente pode ou não acontecer.

Esse mistério é reforçado pela postura submissa exigida de todo praticante de artes marciais orientais. Você não deve questionar, apenas obedecer ao que lhe é pedido. Essa postura submissa fica evidente, por exemplo, no filme Karatê Kid, em que o aluno americano recebe muitas tarefas de limpeza e de manutenção na casa do mestre, a título de aulas de karatê e, quando ele se rebela e confronta o mestre, este indica a utilidade precisa de tudo o que desenvolveu para a luta. A lição fica clara: apenas obedeça aquele que sabe, não importa o quão sem sentido a tarefa lhe pareça.

Na minha opinião de ex-aluno e fã de filme de artes marciais, essa expectativa de que o discípulo deve seguir cegamente o mestre não apenas não funciona no ocidente, como promove a infantilização sob o ponto de vista psicológico. O infantilismo ocorre por causa da submissão cega tipicamente esperada do aluno, chamado então de discípulo. Essa expectativa, típica da visão oriental, de que um discípulo deve se submeter a um guru para orientar sua vida, elimina a crítica e o questionamento, características nossas, ocidentais. Não sei se tal postura de submissão é ruim para as culturas orientais, mas sei que isso não é bom, sob o ponto de vista psicológico, para os ocidentais adultos.

Nossa sociedade encontra-se tomada pelo arquétipo do puer aeternus, isto é, pelo menino-Deus, possuidor da juventude eterna. Quando algo assim ocorre, quando um arquétipo nos toma em nosso inconsciente, começamos a ter atitudes neuróticas, ansiosas e obsessivas e nem percebemos, porque fomos tomados a partir do inconsciente (não nos é consciente).

Hoje, ninguém mais pode envelhecer! Gastamos dinheiro e tempo suando nas academias, tomando suplementos alimentares (e outras coisas) e compramos como loucos os produtos da moda, simplesmente para não ficar ultrapassados, isto é, para não envelhecermos. Claro que você não acha que cai assim em algo tão óbvio e deve estar racionalizando nesse momento uma boa justificativa para o que faz, como “penso apenas na minha saúde” ou “não sou exagerado”, mas a verdade é que, se você está tomado pelo inconsciente então não terá consciência do que realmente impulsiona suas ações e decisões! Não há como saber sem observar seus sonhos.

Batalhas são travadas diariamente em consultório para se tentar conscientizar o cliente de eventuais sonhos (uma das manifestações do inconsciente) que possam pedir que este saia da neurose “forever young”. Um cliente meu, que ainda compete em maratonas aos 60 anos de idade (e quando digo competir quero dizer que ele não dorme se perder ou se seu tempo de prova aumentar!), sonhou que estava com seu traseiro de fora enquanto corria uma importante prova e todos riam dele. Uma bonita cliente de trinta e poucos anos e de corpo super musculoso sonhou que estava literalmente presa nos equipamentos da academia, enquanto suas amigas se divertiam comendo e bebendo num restaurante. Sonhos assim podem indicar a necessidade de parar de tentar manter a aparência e o desempenho de quando se é jovem: o cliente está passando por um ridículo e a cliente musculosa precisa viver com menos restrição para conseguir se divertir.

As artes marciais orientais podem contribuir com essa neurose moderna ao nos infantilizar na obediência cega a um mestre ou guru e também ao nos vender um sonho de poder, algo que magicamente aparecerá em nossos punhos e pés, depois de muitos anos de cega dedicação a uma orientação superior. Isso funciona bem para crianças, pois essas, por definição, são infantis, isto é, devem ser guiadas por uma autoridade superior, por um adulto. Mas o mesmo não pode ser aplicado a um adulto psiquicamente equilibrado, pois ele deve ser sua própria autoridade, não um neurótico discípulo infantilizado.

Voltando ao filme Ip Man, as contradições desse modelo oriental de submissão são evidenciadas nos relacionamentos e na moral que o filme tenta nos vender. Claro que o que vemos na tela não passa de uma idealização e, por isso mesmo, a coisa fica mais interessante ainda, pois os ideais infantis de ordem e harmonia do modelo mestre-discípulo são evidenciados.

O Ip Man parece ser a pessoa mais paciente e humilde do universo, mas treina fortemente uma técnica de combate e defesa, uma arte marcial. Isso em si já é uma contradição. Ele passa a mensagem de que o kung fu não deve ser usado para promover a violência mas ele, ironicamente, vive se envolvendo em disputas com os punhos, até mesmo para conseguir novos alunos. As disputas pelo poder físico são intermináveis (ainda bem, ou não teria graça alguma assistir ao filme), por mais que a filosofia que o mestre apregoe diga o contrário. A resposta infantilizada para essas contradições é fácil: as outras pessoas é que são maldosas e só pensam em suas ambições, enquanto as pessoas de bem são envolvidas na injustiça e só estão tentando se defender… Note que esse é o mesmo discurso de qualquer ditador.

Talvez possamos ir um pouco mais longe nessa análise e entender que essa mesma base infantilizada de se submeter adultos é típica de sistemas totalitários, como o da China comunista, em que o “grande pai” ou o governo pensa por você e sempre sabe o que é melhor para você, tudo o que ele exige é uma cega submissão. Nesse caso, o mestre é o Estado.

Nos governos totalitários, as pessoas são tratadas como inocentes ovelhas que precisam ser conduzias por um grande pai, que também as livra das tentações do desenvolvimento de posicionamentos críticos – afinal, qual é a utilidade de se criticar quando se deve obedecer cegamente quem sabe o que é melhor para você? Invariavelmente, nesses locais, a imprensa é controlada pelo Estado e as notícias internacionais são censuradas, tudo com o objetivo de livrar as pobres ovelhas de crescerem em autoridade pessoal e crítica.

O kung fu, assim como os sistemas totalitários de governo são, portanto, muito bons – para as crianças.

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Natal e Ano Novo: necessidade psicológica ou imposição comercial?

A importância dos símbolos da renovação na visão da Psicologia Analítica de Carl Jung 

Muitos dos meus clientes de psicoterapia mostram-se irritados nessa época de final de ano, devido ao espírito festivo que está no ar. Como se trata, aparentemente, de uma contradição – afinal, como alguém pode se irritar com festas e comemorações? – resolvi investigar melhor as possíveis causas disso.

Descobri dois típicos padrões de crítica sobre o Natal e o Ano Novo. Tais clientes normalmente dizem, sobre essas duas datas comemorativas, que elas nada mais são do que:

1. crendices que há muito deveriam ter sido ultrapassadas por nosso avançado racionalismo científico e/ou

2. tradições cuidadosa e eficazmente exploradas pelo capitalismo para ativar nosso consumismo.

Penso que essas visões são bem frias e até um pouco cínicas, pois tentam reduzir a importância da vivências das festividades de final de ano para nossa psique.

Vivenciar os rituais de Natal e Ano novo está muito além de uma nostalgia infantil, como alegam algumas pessoas, pois trata-se de uma necessidade de entrar em contato e atender às demandas do nosso inconsciente – e esse é um assunto sério para nosso equilíbrio psíquico.

Quando se tenta reduzir um ritual espontâneo de celebração ao termo pejorativo “crendice” (item 1, acima), percebemos uma repulsa aos conteúdos do inconsciente, que não pertencem ao nosso mundo material e objetivo (são conteúdos de nossa alma). Algumas pessoas querem acreditar que a realidade é apenas o que se pode “tocar concretamente”, mas Freud e Jung já demonstraram que o inconsciente é parte integrante de nossa experiência de vida e influencia efetivamente nossas percepções, escolhas e atitudes.

O inconsciente muitas vezes nos empurra para uma participação num ritual sem que possamos explicá-lo ou encontrar uma razão objetiva para tal experiência. Afinal, para que serve a árvore de Natal?

Os rituais de final de ano sempre estiveram presentes na humanidade, como um ciclo que se encerrava e que despertava a necessidade de renascimento.

Podemos estudar em especial os povos que, devido às suas localizações, experimentavam os rigores do inverno no Hemisfério Norte. Nessa época em que as folhas das árvores caíam, a neve aparecia e a luz solar diminuía sua presença (menor número de horas com luz solar – Solstício de inverno), a morte do fim de um ciclo está no ar. As pessoas então talvez sentissem uma grande necessidade de celebrar o pinheiro (espécie tradicional para a árvore de Natal) porque suas folhas pontiagudas nunca caem ou mudam de cor no inverno. Associar-se a uma árvore que não é influenciada pelos rigores do inverno pode ser inspirador para nossas almas. Podemos pensar que tal “árvore imbatível” também nos dá forças para superar os rigores do inverno ou, de modo geral, da vida. A vida renascerá depois do final do ciclo! Por que desprezar essa conexão com um cinismo racionalista? Por que não se deixar inspirar?

A verdadeira origem dos rituais de final de ano é pagã. Ao contrário do que muita gente acredita, esses rituais não foram inventados ou impostos pelo cristianismo. A religião cristã apenas se apropriou de várias festas e rituais pagãos e acabou adaptando-os à sua própria mitologia.

Assim, a vivência desses rituais ultrapassa em muito nosso entendimento racional e concreto; talvez nunca encontremos uma explicação final para suas utilidades objetivas em nossas vidas mas sabemos (ou sentimos) que precisamos deles ainda assim. Eles podem nos inspirar da mesma maneira que um ato genuinamente heróico ou uma canção que nos toque profundamente. Novamente, por que abrir mão disso tudo com um cinismo racionalista?

A crítica de que essas tradições são exploradas para nos induzir ao consumo (item 2) cai por terra com o que foi exposto ao se analisar o item 1 acima. Essas tradições (rituais e celebrações de final de ano), como vimos, sempre foram uma necessidade da humanidade (ao menos da civilização ocidental – não tenho conhecimento sobre as sociedades orientais sob esse aspecto). Assim, o comércio pode apenas pegar carona no efeito que esses rituais nos causam, no modo em que eles nos transformam, mas nunca inventá-los ou inflá-los intencionalmente (não funcionaria caso não tivéssemos necessidade deles).

Um cliente mais cínico poderia me perguntar: mas e o frenesi das compras? Será que esse também era um ritual de origem pagã? Ou será que não são as lojas que nos atiçam tal comportamento consumista? Bem, esse comportamento é apenas uma leitura moderna e capitalista do ritual de origem pagã de fartura de comida e bebida que sempre esteve presente nos festivais de inverno do Hemisfério Norte. O ritual de comemoração com fartura material traz em sua raiz uma intenção mágica de fazer com que todo o ano seguinte apresente o mesmo grau de fartura com que foi iniciado. O Natal está mesmo ligado à fartura material e ele pareceria muito triste se esse componente essencial fosse eliminado (a mágica não iria funcionar).

Os rituais de final de ano estão ligados a processos de renovação e renascimento (árvore de Natal, presépio, nascimento de Cristo, desejos de um bom Ano Novo, etc.). Vivencie-os com espontaneidade e aproveite os benefícios de sentir a alma leve e renovada de esperança!

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